Aparece sem aviso prévio – uma cólica repentina, uma corrida urgente para o banheiro e a percepção de que seus planos para o dia mudaram drasticamente. A diarreia aguda é um dos motivos mais comuns pelos quais as pessoas ligam para o médico, vão ao atendimento de urgência ou procuram respostas online às 2 da manhã. Embora a maioria dos episódios seja autolimitada e se resolva em poucos dias, saber como responder de forma eficaz pode significar a diferença entre um incômodo leve e uma crise perigosa de desidratação. Aqui está o seu plano de ação baseado em evidências, de um gastroenterologista que orientou milhares de pacientes exatamente nessa situação.
📊 Aguda vs. Crônica: conheça a diferença
A distinção é importante porque as causas, o tratamento e a urgência são fundamentalmente diferentes.
A diarreia aguda dura menos de 14 dias. A grande maioria dos casos (mais de 90%) é causada por infecções – sendo a gastroenterite viral (norovírus, rotavírus) a mais comum. A intoxicação alimentar por bactérias (Salmonella, E. coli, Campylobacter) é a segunda causa mais comum. A diarreia aguda geralmente é autolimitada e remite sem tratamento específico.
A diarreia crônica persiste por mais de 4 semanas. Este é um cenário clínico totalmente diferente e requer investigação sistemática. As causas comuns incluem síndrome do intestino irritável (SII-D), doença inflamatória intestinal (doença de Crohn, colite ulcerativa), doença celíaca, colite microscópica, má absorção de ácidos biliares e infecções crônicas. Se a sua diarreia já dura mais de um mês, você precisa consultar um gastroenterologista – e não apenas controlar os sintomas em casa.
💧 Etapa 1: Hidratação — Sua principal prioridade
A coisa mais importante que você pode fazer durante um episódio de diarreia aguda é manter a hidratação. A diarreia causa rápida perda de água e eletrólitos (sódio, potássio, cloreto, bicarbonato). A desidratação – e não a infecção em si – é o que leva as pessoas ao pronto-socorro e, globalmente, o que torna a diarreia mortal em populações vulneráveis.
Solução de Reidratação Oral (SRO) é o padrão ouro. A fórmula da OMS contém: água, sódio, potássio, glicose e citrato em proporções específicas destinadas a maximizar a absorção intestinal. Opções comerciais como Pedialyte, Drip Drop ou Liquid IV são alternativas convenientes.
Por que a água por si só não é suficiente: A água pura não repõe os eletrólitos perdidos e, sem glicose, a absorção de sódio no intestino fica prejudicada. O mecanismo de cotransporte glicose-sódio no intestino delgado é o que torna a SRO tão eficaz: a glicose puxa o sódio (e a água) através da parede intestinal, mesmo quando o intestino está inflamado.
Receita de reidratação DIY: 1 litro de água limpa + ½ colher de chá de sal + 6 colheres de chá de açúcar + suco de limão opcional. Não é tão preciso quanto o ORS comercial, mas funciona muito bem.
Quanto: Procure substituir cada fezes diarreicas por pelo menos 1 xícara (250 mL) de SRO. Beba com frequência, em vez de engolir grandes volumes, o que pode causar náuseas e vômitos.
🍽️ Passo 2: O que comer (a dieta BRAT está desatualizada)
Durante décadas, os médicos recomendaram a dieta BRAT – banana, arroz, compota de maçã, torradas – como a dieta de recuperação ideal. Embora esses alimentos sejam suaves e não tenham probabilidade de piorar os sintomas, a dieta BRAT é agora considerada muito restritiva. Faltam proteínas, gorduras e micronutrientes adequados, necessários para a recuperação da mucosa intestinal.
Recomendações atuais da Associação Americana de Gastroenterologia: faça uma dieta regular e balanceada conforme tolerado. Não há necessidade de passar fome ou limitar a ingestão apenas a alimentos leves.
Boas escolhas durante a recuperação:
• Proteínas magras: frango, peixe, ovos, tofu
• Amidos de fácil digestão: arroz branco, batatas, macarrão simples, biscoitos
• Legumes cozidos: cenoura, feijão verde, abóbora (evite vegetais crus temporariamente)
• Bananas (substituto de potássio), purê de maçã (a pectina ajuda a absorver água)
• Iogurte com culturas vivas (probióticos ajudam na recuperação)
Evitar temporariamente:
• Alimentos gordurosos, fritos ou muito picantes
• Vegetais crus e grãos integrais ricos em fibras (espere até que as fezes se normalizem)
• Produtos lácteos que não sejam iogurte (a enzima lactase geralmente fica temporariamente esgotada)
• Álcoois de açúcar (sorbitol, manitol) encontrados em chicletes e doces sem açúcar
💊 Etapa 3: Medicamentos — O que ajuda e o que não ajuda
Loperamida (Imodium) é o antidiarreico de venda livre mais eficaz. Atua diminuindo a motilidade intestinal, permitindo que mais água seja absorvida. É apropriado para adultos com diarreia não febril e sem sangue. Tome 4 mg inicialmente e depois 2 mg após cada evacuação amolecida (máximo 16 mg/dia). NÃO use loperamida se tiver diarreia com sangue ou febre – retardar o trânsito de uma infecção invasiva pode piorá-la.
Subsalicilato de bismuto (Pepto-Bismol) tem propriedades antibacterianas e anti-inflamatórias suaves. Pode reduzir a frequência das fezes em cerca de 50% na diarreia do viajante. Observação: torna as fezes pretas (normal, não alarmante) e deve ser evitado por pessoas que tomam anticoagulantes ou alérgicas à aspirina.
Probióticos: as evidências apoiam cepas específicas para diarreia aguda. Saccharomyces boulardii e Lactobacillus rhamnosus GG apresentam os dados mais fortes, reduzindo a duração da diarreia em aproximadamente 1 dia. Eles são seguros e vale a pena tentar, embora não substituam a hidratação.
💉 Antibióticos: quando ajudam versus quando prejudicam
Esta é uma distinção crítica que até mesmo alguns profissionais de saúde erram.
A maioria das diarreias agudas são virais — os antibióticos são inúteis contra os vírus e podem, na verdade, prejudicar ao perturbar o microbioma intestinal, potencialmente prolongando os sintomas ou causando infecção secundária por Clostridioides difficile.
Os antibióticos SÃO apropriados para:
Antibióticos devem ser EVITADOS para: gastroenterite por Salmonella não complicada (antibióticos podem prolongar o estado de portador), E. coli O157:H7 (antibióticos aumentam o risco de síndrome hemolítico-urêmica) e gastroenterite viral.
✈️ Diarréia do Viajante: Dicas de Prevenção
A diarreia do viajante afecta 30-70% dos viajantes internacionais para destinos de alto risco (Sul da Ásia, África, América Central). As estratégias de prevenção incluem:
🚨 Sinais de alerta: quando ir ao pronto-socorro
- Diarréia com sangue ou alcatrão preto — sugere infecção invasiva ou sangramento gastrointestinal.
- Febre alta (>101,3°F / 38,5°C) — indica uma infecção bacteriana ou parasitária invasiva que pode necessitar de antibióticos direcionados.
- Sinais de desidratação grave: tontura ao ficar em pé, urina muito escura, não urinar por mais de 8 horas, boca e pele secas, taquicardia, confusão.
- Dor abdominal intensa que é constante (não apenas cólicas) — pode indicar complicações como megacólon tóxico ou perfuração.
- Sintomas que duram mais de 7 dias sem melhora.
- Uso recente de antibióticos seguido de diarreia aquosa — levanta preocupação para C. difficile infecção.
- Pacientes imunocomprometidos (HIV, quimioterapia, receptores de transplantes) — mesmo a diarreia “leve” pode ser perigosa.
📅 Cronograma de recuperação: o que esperar
A diarreia aguda é quase sempre uma condição autolimitada. Seu corpo está fazendo exatamente o que foi projetado para fazer: eliminar rapidamente os patógenos. Sua função é apoiar esse processo com hidratação, nutrição adequada e saber quando o simples autocuidado não é suficiente. Mantenha-se hidratado, seja paciente e não hesite em procurar ajuda se surgirem sinais de alerta. Seu intestino é extremamente resistente. Com o apoio certo, ele se recuperará.