Gerenciando a constipação: soluções baseadas em evidências que realmente funcionam

⚡ TL;DR

A constipação é sem dúvida a queixa digestiva mais comum no mundo desenvolvido. Afeta aproximadamente 16% de todos os adultos em todo o mundo, aumentando para 33% nas pessoas com mais de 60 anos. No entanto, apesar da sua prevalência, é cronicamente subtratada – em parte porque as pessoas têm vergonha de mencioná-la e em parte porque existem muitos conselhos contraditórios por aí. Suco de ameixa, enemas de café, chás de ervas, limpezas desintoxicantes... o barulho é ensurdecedor. Vamos abordar isso com o que a ciência realmente diz.

📋 O que realmente é (e não é) constipação

Medicamente, usamos os critérios de Roma IV para definir constipação funcional. Você precisa ter pelo menos dois dos seguintes sintomas nos últimos três meses, com início há pelo menos seis meses:

Esforço durante mais de 25% das evacuações
Fezes irregulares ou duras (Bristol tipo 1–2) em mais de 25% dos movimentos
Sensação de evacuação incompleta em mais de 25% das vezes
Sensação de obstrução ou bloqueio anorretal
Manobras manuais para facilitar a defecação
Menos de 3 evacuações espontâneas por semana

Observe que a frequência por si só não define constipação. Se você vai todos os dias, mas suas fezes estão moles, fáceis de evacuar e você se sente completo - isso não é prisão de ventre. Por outro lado, se você faz diariamente, mas faz esforço doloroso com pellets duros, isso é prisão de ventre.

🔍 Causas Comuns: Encontrando a Raiz do Problema

O tratamento eficaz começa com a identificação da causa. Aqui estão as principais categorias:

📊 As quatro grandes causas

1. Fatores dietéticos: A baixa ingestão de fibras é a causa mais comum em todo o mundo. O adulto ocidental médio consome apenas 12–15 g de fibra diariamente – aproximadamente metade da quantidade recomendada. A ingestão inadequada de água agrava o problema, pois as fibras precisam de água para aumentar o volume das fezes de maneira eficaz.

2. Estilo de vida sedentário: a inatividade física retarda o trânsito colônico. O cólon responde ao movimento: as contrações nos músculos esqueléticos estimulam o peristaltismo por meio de vias mecânicas e neurais.

3. Medicamentos: os opioides são os mais notórios (a constipação induzida por opioides afeta 40–80% dos pacientes). Outros agressores comuns incluem bloqueadores dos canais de cálcio, suplementos de ferro, anticolinérgicos, antidepressivos (tricíclicos e ISRSs) e antiácidos contendo alumínio.

4. Disfunção do assoalho pélvico (defecação dissinérgica): Em até 40% dos pacientes com constipação crônica, o problema não é o trânsito lento – é a contração paradoxal dos músculos do assoalho pélvico durante a tentativa de defecar. Em vez de relaxar para permitir a passagem das fezes, os músculos ficam tensos. Isso geralmente passa despercebido e requer testes especializados (manometria anorretal) para diagnosticar.

🌾 Fibra: sua ferramenta mais poderosa (usada corretamente)

Nem todas as fibras são criadas iguais. Compreender a diferença entre fibra solúvel e insolúvel ajudará você a escolher a abordagem certa.

Fibra solúvel (psyllium, aveia, feijão, maçã, linhaça) se dissolve em água para formar uma substância semelhante a um gel. Amolece as fezes, aumenta o volume e é mais suave para o trato gastrointestinal. A casca de psyllium é o suplemento mais estudado e é recomendada como terapia de primeira linha por todas as principais diretrizes gastroenterológicas.

Fibra insolúvel (farelo de trigo, grãos integrais, cascas de vegetais, nozes) não se dissolve – ela adiciona volume e acelera o trânsito através do cólon. No entanto, em pacientes com constipação por trânsito lento, grandes quantidades de fibra insolúvel podem piorar o inchaço e o desconforto sem melhorar os sintomas.

💡 A regra prática da fibra

Comece devagar, vá devagar. Aumente a fibra em 5 gramas por semana até atingir sua meta de 25–30 g/dia. Aumentos rápidos causam inchaço, cólicas e gases à medida que o microbioma intestinal se ajusta. Sempre combine fibra com maior ingestão de água – pelo menos um copo extra de água para cada 5 g adicionais de fibra. Se você sentir inchaço significativo, prefira fibras solúveis (psyllium) em vez de fibras insolúveis (farelo).

💊 Laxantes: um guia prático

Quando as medidas de estilo de vida por si só não são suficientes, os laxantes são o próximo passo. Esta é a hierarquia que sigo na prática:

1
Laxantes osmóticos (primeira linha): O polietilenoglicol (PEG 3350/Miralax) atrai água para o cólon, amolecendo as fezes. Não cria hábito, tem efeitos colaterais mínimos e é seguro para uso diário a longo prazo. A lactulose é uma alternativa, mas causa mais inchaço. Produtos à base de magnésio (leite de magnésia, citrato de magnésio) são eficazes, mas devem ser evitados em pacientes com doença renal.
2
Laxantes estimulantes (segunda linha): Bisacodil (Dulcolax) e senna estimulam diretamente as contrações do cólon. Eles funcionam dentro de 6 a 12 horas e são apropriados para uso intermitente ou de resgate. Apesar dos mitos persistentes, eles NÃO causam dependência ou “intestino preguiçoso” quando usados ​​nas doses recomendadas. No entanto, eles não são ideais para uso diário a longo prazo.
3
Amaciantes de fezes: Docusato de sódio (Colace) é amplamente prescrito, mas as evidências de sua eficácia são surpreendentemente fracas. Um estudo de 2005 descobriu que não era melhor que o placebo. Se precisar de suavização, os agentes osmóticos são mais eficazes.
4
Opções de prescrição: Para casos refratários, linaclotide (Linzess), plecanatida (Trulance) e prucaloprida (Motegrity) oferecem mecanismos direcionados. Isso deve ser discutido com seu gastroenterologista se as opções de venda livre falharem após 8 a 12 semanas.

🪑 Postura no banheiro: a vantagem do agachamento

Aqui está uma mudança simples que pode fazer uma grande diferença: eleve os pés enquanto está sentado no vaso sanitário.

Quando você se senta em um vaso sanitário padrão com os pés apoiados no chão, seu ângulo anorretal é de aproximadamente 90 graus. O músculo puborretal – que envolve o reto como uma tipoia – mantém uma torção que ajuda na continência, mas dificulta a evacuação.

Quando você eleva os joelhos acima dos quadris (usando um banquinho, livros empilhados ou um produto comercial como o Squatty Potty), o ângulo anorretal se abre em aproximadamente 120–130 graus. Isso relaxa o músculo puborretal, endireita o canal retal e permite que as fezes passem com muito menos esforço.

Um estudo de 2019 publicado no Journal of Clinical Gastroenterology descobriu que o uso de um banquinho sanitário reduziu o esforço em 50%, reduziu o tempo gasto no banheiro em 30% e melhorou a sensação de evacuação completa. É gratuito, seguro e entra em vigor imediatamente.

🧠 Terapia de biofeedback: para quando os músculos são o problema

Se você tem defecação dissinérgica – onde os músculos do assoalho pélvico se contraem em vez de relaxarem durante as tentativas de evacuar – nenhuma quantidade de fibra ou laxantes resolverá totalmente o problema. É aqui que entra a terapia de biofeedback.

O biofeedback usa sensores colocados no reto ou próximos a ele para fornecer feedback visual ou auditivo em tempo real sobre a atividade muscular do assoalho pélvico. Ao longo de 4 a 6 sessões, um terapeuta especializado ensina você a coordenar conscientemente o relaxamento do assoalho pélvico com movimentos abdominais. As taxas de sucesso variam de 70 a 80% e os resultados são duradouros – a maioria dos pacientes mantém a melhora anos depois.

🚨 Sinais de alerta: quando a constipação precisa de avaliação urgente
  • Constipação de início recente após os 50 anos — justifica o rastreamento do câncer colorretal.
  • Sangue nas fezes ou no papel higiênico — não assuma hemorróidas sem avaliação.
  • Perda de peso não intencional que acompanha a constipação.
  • Dor ou distensão abdominal intensa — pode indicar obstrução.
  • Histórico familiar de câncer colorretal ou doença inflamatória intestinal.
  • Sem evacuação por mais de 7 dias — considere impactação, especialmente em pacientes idosos ou usuários de opioides.

📝 Seu plano de ação anticonstipação

Semana 1: Adicione um suplemento de fibra (comece com 1 colher de chá de psyllium diariamente) e beba 2 copos extras de água. Comece uma caminhada diária de 20 minutos.
Semana 2: Aumente a fibra para 2 colheres de chá por dia. Comece a usar um banquinho de banheiro. Estabeleça um horário consistente para ir ao banheiro pela manhã (sente-se por 5 minutos após o café da manhã).
Semana 3–4: Continue aumentando a fibra até atingir a meta (25–30 g/dia de alimentos + suplementos). Se ainda tiver dificuldades, adicione PEG 3350 (uma tampa diária).
Semana 8+: Se os sintomas persistirem apesar do acima exposto, consulte um gastroenterologista. Você pode se beneficiar com testes de manometria anorretal ou medicamentos prescritos.
💡 Um último pensamento

A constipação não é uma falha de caráter, um sinal de preguiça ou algo que você deva apenas "resistir". É uma condição médica com mecanismos bem compreendidos e tratamentos eficazes. Se as mudanças no estilo de vida não forem suficientes, não desista – intensifique. Seu gastroenterologista tem um kit de ferramentas profundo e juntos vocês podem descobrir o que funciona para o seu corpo.